sábado, 3 de janeiro de 2015

Por que a luz foi embora?



José Reinaldo Oliveira


Ontem, dia 31 de dezembro de 2014, enquanto eu, familiares e alguns amigos esperávamos a aproximação do ano novo na porta de casa, aqui em Sítio do Mato – uma cidadezinha acolhedora do oeste baiano –, fomos surpreendidos pela suspensão dos serviços de distribuição de energia elétrica. Ficamos ali achando graça da escuridão, admirando a luz da lua sobre a pracinha da Rua Sete de Setembro e conversando se a luz voltaria a tempo de desfrutarmos da ceia e da festinha que haveria em um clube da cidade. Mas a luz não voltou, a escuridão persistiu e a lua continuou a ser a lâmpada sobre o jantar divertido entre pessoas que se gostam. A celebração aconteceu independente da energia elétrica. Mas enquanto conversávamos a pergunta recorrente era a seguinte: Por que a luz foi embora? Não havia nuvens carregadas no céu, nenhum indício de chuva, nem sequer um vento mais forte que pudesse danificar fios ou postes. E esse questionamento me fez refletir sobre outras perguntas que são específicas ao contexto de Sítio do Mato, perguntas históricas que se repetem no cotidiano das pessoas que vivem sua dinâmica social.
Por que a energia sempre vai embora? Por que as pessoas dizem que Sítio do Mato parou no tempo? Por que há um constante pessimismo em relação ao desenvolvimento social do município? Por que, desde sua emancipação política, a cidade sempre foi governada por dois polos de poder que perpetuam a incompetência e a falta de ética em sua gestão? Por que os políticos eleitos pelo povo enriquecem visivelmente num curto espaço de tempo? Essas são algumas das muitas perguntas que permeiam o imaginário coletivo da população, fazem parte das conversas de boteco, dos papos entre amigos e das discussões acaloradas entre familiares que são passionais em relação à disputa político-partidária na cidade. Eu percebi que as respostas para essas muitas perguntas são insuficientes e, às vezes, mal elaboradas. Na verdade, as pessoas questionam, reclamam, mas não fazem um exercício mais sério em relação à reflexão das causas fundamentais de nossos problemas sociais. Talvez o motivo, ou um dos muitos motivos, seja o fato de boa parte da população atribuir uma “explicação mágica”, ingênua, ao atraso social, à falta de serviços de saúde, à falta de quase tudo que a dignidade humana exige para existir.
Já ouvi muitos dizerem que “as coisas são assim mesmo”, que “Sítio do Mato não tem jeito”, que “daqui há vinte, trinta anos, o município vai continuar como está, ou até pior”. As pessoas dizem isso com facilidade. Meus amigos dizem isso constantemente. Meus familiares também. E eles dizem essas coisas não porque desejam que as coisas não melhorem para a cidade onde vivem. Eles dizem essas coisas porque lhes falta esperança, lhes falta a fé na mudança de situação. As pessoas estão cansadas de testemunharem a reprodução das injustiças, da sem-vergonhice, da roubalheira por parte de seus líderes políticos. A desesperança, que é o contrário da esperança, é o caminho mais fácil para aqueles que só vêem as coisas piorarem. Preferem não esperar nada de bom do amanhã, para que a mudança, caso aconteça, pegue a todos de surpresa e lhes traga uma alegria inesperada. Como se a mudança dependesse da sorte ou do acaso para acontecer.
A “explicação mágica”, a que culpa as forças da natureza, o destino e até mesmo Deus, é a válvula de escape que boa parte da população de Sítio do Mato usa para viver longe do confronto com seus líderes políticos. É mais fácil dizer que a energia foi-se embora por causa da chuva, ou por causa dos raios. É bem mais simples falar que “as coisas são assim mesmo”, diante da riqueza ilícita dos vereadores e do prefeito, que afrontam a pobreza da maioria da população. É bem menos oneroso dizer que o município vai continuar parado no tempo independente do que aconteça. Mas arriscado é dizer que há responsáveis concretos pelo roubo dos cofres públicos, pela destruição da praça central da cidade e pela falta de tudo em um município que se acostumou a viver sob a chibata daqueles que usam seu dinheiro e sua influência para saquear e oprimir.
A classe política de Sítio do Mato conseguiu um feito histórico: institucionalizar a desonestidade, a falta de ética, os esquemas escusos e as alianças perversas entre a prefeitura e a câmara de vereadores. Não há fiscalização dos atos do executivo, das decisões do prefeito por parte dos vereadores. O prefeito Alfredo Magalhães conseguiu amansar o ímpeto do seu legislativo, pelo menos da maioria de que precisa para ter aprovado seus projetos, utilizando-se de “acordos”, que em sua maioria envolve o pagamento de generosas quantias de dinheiro. Não há segredos sobre isso, todos sabem, é conversa de porta de rua.
O último “esquema” que todos sabem diz respeito à reeleição do presidente da câmara de vereadores, o senhor Agenor. Não tenho nada contra a pessoa desse senhor, mas acho inconcebível elevar a condição de presidente da câmara municipal de vereadores alguém que mal sabe escrever o próprio nome. A questão aqui é técnica e ideológica, pois não há a competência mínima para o exercício de uma função que requer, além da leitura e da escrita, a firmeza honesta de quem quer bem o povo que lhe elegeu. O fato de se deixar manipular pelo prefeito Alfredo Magalhães faz do Agenor cúmplice de seus atos duvidosos. Ele, o Agenor, trai a comunidade que lhe elegeu e trai a sua trajetória como sertanejo trabalhador. Ter pouca instrução não é demérito para ninguém, principalmente num contexto social injusto que caracteriza o sertão da Bahia. Demérito, vergonha, absurdo, é o fato de se deixar usar pelo opressor de seu povo. O opressor saqueia as finanças do munícipio com a aprovação do presidente da câmara, um fantoche que está a sorrir diante das mazelas sociais que entristecem os sitiomatenses.
A câmara municipal tornou-se uma extensão da prefeitura, algo inconcebível para uma democracia sadia e respeitável. O senhor Alfredo “reina” absoluto, sem oposição, sem fiscalização, sem denúncias e também sem seu “diploma de prefeito”, retirado dele pela justiça há pouco tempo. Há alguma dúvida de que suas contas serão aprovadas sem questionamentos pela maioria dos vereadores em um futuro próximo? Ou que alguma de suas propostas não será acatada por aqueles que deveriam ser sua oposição? Percebo que o Alfredo Magalhães, desde muito jovem, nunca enfrentou oposição de ninguém, pois sempre possuiu os mecanismos de dominação sobre as pessoas, de funcionários seus aos eleitores carentes. Dominar os vereadores, ou pela menos a maioria de que precisa, é apenas a continuação de sua história de violência sobre a vontade do Outro. Mas no caso dos nobres vereadores, há uma parcela de interesse pelo dinheiro e pelas benesses que o prefeito lhes concede. Há uma “boa vontade” em vender Sítio do Mato, não importa se é no plenário da câmara ou em algum canto escondido por aí.
Além da institucionalização da sem-vergonhice, a classe política que nos governa é responsável também pela institucionalização da desesperança do povo. Aquela mesma da qual falei a poucos parágrafos atrás. Não ter esperança por um tempo, ou, ficar tentado pela desesperança em algum momento difícil da vida é algo absolutamente normal e aceitável. Mas os vereadores e o prefeito conseguiram a proeza de fazer com que a falta de esperança de dias melhores sobre a nossa cidade se transformasse num imperativo de vida da população. Exemplo disso é o pessimismo presente nas conversas das pessoas simples, a falta de identificação da população em relação aos seus governantes, a tristeza no semblante pela refeição que sempre falta na mesa daquele cujo voto foi comprado no período de eleições. O próprio esvaziamento da câmara municipal de vereadores, por parte do povo, é a prova de que participar da vida politica do município deixou de ser algo importante. A desesperança faz esse tipo de coisa com a gente, nos tira o interesse de saber das decisões políticas que afetam a vida de todos nós. Nos tira também o desejo de luta pelo bem comum. Na verdade, o bem comum é pouco lembrado quando a urgência da fome, da doença e da ignorância abate o ânimo e a fé do povo.
A luta política é uma das vias para que o povo compreenda que a falta de oportunidades, a falta do alimento, a falta dos serviços de saúde e de educação tem a ver com as decisões políticas tomadas por vereadores que estão a vender a dignidade da população que representam. Essa falta de dignidade nos serviços prestados às pessoas também tem a ver com a incompetência e a desonestidade de um prefeito que transformou Sítio do Mato na extensão de seu quintal, ou, melhor dizendo, na extensão de uma de suas muitas fazendas. Talvez daí venha a sua insistência em tratar as pessoas como gado ferrado e manso.
Todas essas coisas que digo, as digo na esperança de que os ânimos e a consciência crítica de quem lê essas poucas palavras sejam inflamados. É preciso que as pessoas entendam que a desesperança, o pessimismo e o estado de passividade são armas que os poderosos usam para adestrar o povo, fazendo-o imaginar que as circunstâncias não serão transformadas. O desrespeito à coisa pública, o roubo descarado do dinheiro do contribuinte, a compra de votos, os acordos escusos e a degradação da classe política foram instituídos por políticos que não possuem compromisso com as necessidades mais urgentes do município. Todavia, é necessário compreender que esse estado de coisas não é definitivo. Não é possível que as pessoas de bem dessa terra se satisfaçam com a violência e a anulação de seus direitos. A mudança deve ser encarada como um imperativo de luta por parte de cada cidadão sitiomatense, dos pescadores da Rua de Cima aos professores das comunidades rurais, das donas de casa aos lavradores da terra, dos jovens sonhadores aos senhores e senhoras de sabedoria profunda. Por isso, a mudança implica luta, organização por parte dos cidadãos, briga diária com a classe política para que os mesmos ajam com integridade, pelo menos pela imposição do constrangimento.
O povo precisa fazer com que os políticos sintam vergonha de suas práticas ilícitas, apontando-lhes o dedo, dizendo-lhes na cara que sabem de suas falcatruas, exigindo deles uma postura condizente com a função para a qual foram eleitos. As pessoas precisam ir à câmara em dia de votação, precisam levar até os vereadores suas propostas, precisam falar o que pensam sobre os rumos que a cidade está tomando. O cidadão sitiomatense precisa aprender a denunciar a safadeza dos vereadores e de seu prefeito, não só reclamando, mas recorrendo aos órgãos de controle, como o Ministério Público.  Precisam parar de votar em gente estragada moralmente, que usa os cargos políticos como plataforma de enriquecimento. Precisam parar de vender os seus votos. Precisam eleger pessoas honestas, fichas-limpas, comprometidas com o desenvolvimento social do município.  Sítio do Mato precisa de gente competente, tanto técnica quanto moralmente, para exercer não somente as funções de prefeito, vereador e secretários municipais, mas também cargos que são vitais para o desenvolvimento integral de nossa comunidade, como o de professor, enfermeiro, agricultor etc. E esses profissionais precisam organizar-se em sindicatos com força política, para pressionar os que estão a governar com tranquilidade acomodada e irresponsável.
As coisas são assim porque um conjunto de pessoas fez com que elas fossem assim. O estado atual de nosso município é o resultado da incompetência e da desonestidade dos políticos que nos governaram e nos governam. Também há a parcela de responsabilidade do povo, que vem admirando os coronéis e abastados há anos, desenvolvendo uma “fascinação pelo opressor” de sua gente, optando sempre pela “lógica da Hilux” em detrimento das boas propostas políticas dos filhos dessa terra. Apesar dessa constatação, é possível afirmar que as coisas podem mudar, que essa situação de safadeza administrativa que aí está pode ser superada com a luta organizada e consciente do povo. É nesse quadro de superação da roubalheira em que acredito. Acredito no povo de Sítio do Mato. Acredito na sua assunção crítica. Acredito na superação dos “Alfredinhos” e “Dionízios” e de seus legados perniciosos.

Na noite da virada, mesmo no escuro, percebi que é preciso pensar sobre as questões que nos sufocam enquanto cidadãos sitiomatenses. Percebi que é preciso reformular as perguntas e procurar de forma séria as respostas para elas. Depois da meia noite, adentrando a madrugada, as luzes se acenderam e houve gritos de alegria pela possibilidade da festinha em comemoração ao ano novo que se iniciava. A luz voltou, não por mágica, mas porque o problema na rede foi resolvido pelos técnicos. Isso me fez pensar na quantidade de problemas que devem ser solucionados no nosso município, não por mágica, mas pela luta concreta de homens e mulheres que querem bem a terra de sua infância.

3 comentários:

Unknown disse...

Tenho esperança de uma Sítio do Mato melhor, dias estão por vir, e eu estarei lá para brindar, sorrir e comentar como os dias passados foram cruéis, espero em Deus, e aguardo o povo acordar desse pesadelo.
Deus esteja contigo meu amigo e irmão José Reinaldo, faço das suas palavras as minhas.

José Reinaldo Oliveira disse...

Amigo Pedro Henrique, agradeço a gentileza das palavras. Saiba que compartilhamos dessa esperança e vamos lutar para que os sonhos que temos a respeito de nossa cidade se concretizem. Grande abraço!

Unknown disse...

o que faz pessoas serem alienado é a simples falta da busca ao conhecimento e de seus direitos, que venhamos de fato acordar e ver que somos nós que iremos decidir se esse quadro politico continuará da mesma forma ou não.
isso ai tio Zezinho tamos ai nessa luta!que Deus esteja em nossa frente !